Ajoelhado para dentro
Antonio Miranda Fernandes
 
O choro aberto daquela criança a pedir o leite do peito da mãe,
(quem tem fome tem pressa)
Interrompeu o meu lamento...
Que era para dentro.
Abriu parêntese na minha reflexão, enquanto eu olhava as minhas mãos,
Sobre a vida ter inventado a morte.
Partículas que há alguns anos era parte de mim hoje não existem,
E eu não percebi a substituição...
 
Em que relacionamento elas se foram já que nada se perde em 'coisas'?
Invejei o choro descoberto e premente daquela criança diferente do meu...
Que era tão devagar...
Envergonhado...
Em silêncio...
Ajoelhado para dentro.
 
Aquela criança chorava através de uma ternura genuína.
Ela continuava, na verdade, o choro que um dia eu interrompi,
Num dos crepúsculos da minha estrada.
Ela chorava ar,
Terra,
Mar,
Fogo,
Rochas...
A árvore sob a qual eu estava sentado,
E que balançava seus ramos no vento,
Como um animal feliz que abana a cauda para a vida.
 
Suas lágrimas fizeram-se sorriso de prazer,
E todos os olhares que olhavam para ela, também sorriram...
Mamaram no colo daquela mãe e depois continuaram suas caminhadas.
E eu também o fiz...
Feliz para continuar evaporando como parte do Universo
Mamando utopias no úbere da Via Láctea...
 
Diminuo o passo e sigo descansado e sem pressa,
Dando ainda mais atenção a tudo
Tão belo e tão fugaz...
Apenas as estrelas ainda se fazem depois de tantos anos-luz...
E o que viram nessa longa trajetória?
Só elas o sabem.