Estrela em trabalho de parto
Antonio Miranda Fernandes

Há uma brisa de cavalos-marinhos
Esparramada sobre as camadas de ônix
No dia que se deita.
Sinto dentro de mim um cardume
Inquieto de palavras,
Libertas dos desamores primevos,
Maduras para virem à luz.
Sou o escrever e sou a musa.
Meu peito inflado
Tal qual a barriga de uma nau grávida,
Permanece suspenso
Como uma estrela em trabalho de parto.
Doação e contrações...
Os sentires se põem de cócoras.
Ansiedade...
Eclodem da bolsa rompida
As primeiras letras,
Titubeantes como filhotes de pássaros,
Antes de se lançarem no voo
Sobre as escarpas.
Dor e alegria...
Ao brotar o poema de corpo inteiro
Dentre a placenta da tarde.
Deslumbre...
O primeiro canto do recém-nascido
Reclamando o seu espaço na vida.
Por fim as lágrimas comovidas da musa
No parir poeta que se cumpre.