Razia
Antonio Miranda Fernandes

Poderia um poema não lido a sós,
Não amado na intimidade,
Dizer ao ledor fora do permeio,
Apenas de passagem por ele,
Dos afagos do sol,
E dos cantos das outras estrelas
A um só tempo?

O Mestre Quintana cria que não!

"...Este não quer saber de terceiros,
não quer que interpretem, que cantem,
que dancem um poema.
O verdadeiro amador de poemas

ama em silêncio..."

Eu também o creio...
Seria ele,
Mais um poema lido em voz alta
Para os mofos
Dos conventos metafóricos,
Ou nos seminários,
Apenas como obrigatório estudo.
Contudo...
Um poema contará
Os seus segredos,
Ao coração que o amar em silêncio
Ardente.
Como a paixão sem medos...
Somente ele entenderá,
Dos poetas;
O sentir chamado de louco,
A transparência do rocio,
A brejeirice da alegria,
O êxtase na turvação do sangue,
O inesperado dos ventos,
A doação no desaguar dos cios,
A mansidão dos mangues,
E a fúria da razia,
Que por muito pouco,
Apenas um fio,
Pode esfrangalhar a calma da alma,
Num momento,
E passar como não tivesse havido,
A um só tempo.